A imagem de um macaquinho abraçado a um urso de pelúcia após ser abandonado pela mãe comoveu os usuários de redes sociais e chamou atenção para a proximidade evolutiva entre humanos e outros primatas. Essa similaridade sempre levantou uma pergunta incômoda: até onde vai a mente deles? Nas últimas décadas, a resposta tem sido cada vez mais surpreendente. Grande parte dessa virada começou com o trabalho da primatóloga britânica Jane Goodall, que revolucionou a forma como enxergamos os chimpanzés. Em suas pesquisas no Parque Nacional de Gombe, ela registrou comportamentos que, até então, eram considerados exclusivamente humanos. Chimpanzés utilizavam gravetos para retirar cupins de seus ninhos, pedras para quebrar nozes, folhas para absorver água e até objetos para brincar. O uso sistemático de ferramentas revelou uma capacidade sofisticada de resolver problemas. Mas não foi só isso. Goodall também observou sinais claros de emoções complexas. Em um dos casos mais marcantes, um jovem chimpanzé entrou em declínio após a morte da mãe, comportamento interpretado como um quadro semelhante à depressão. Em cativeiro, ela notou expressões abatidas e mudanças comportamentais que reforçaram a ideia de que esses animais vivenciam estados emocionais profundos. Agora, pesquisadores da Johns Hopkins University trouxeram um novo elemento para esse debate: a capacidade de simular mentalmente situações que não estão acontecendo. O experimento envolveu um bonobo chamado Kanzi, conhecido por sua habilidade de comunicação simbólica. Em testes que imitavam encontros sociais, os cientistas encenaram o ato de servir bebidas com uma jarra e copos (sem que houvesse líquido de verdade). Em uma das situações, o pesquisador fingiu encher dois copos com suco imaginário e depois “esvaziou” um deles. Ao ser perguntado qual copo ainda continha a bebida, Kanzi apontou corretamente para o recipiente que, dentro da lógica encenada, deveria estar cheio. Em outro momento, um copo tinha suco real e o outro apenas suco imaginário. Questionado sobre qual preferia, o bonobo escolheu a bebida verdadeira, mostrando que distinguia o faz de conta da realidade. Os resultados se repetiram em novas tentativas. A capacidade de imaginar cenários hipotéticos é considerada um marco importante na evolução cognitiva. Em humanos, ela está ligada ao planejamento, à criatividade e à empatia. Se primatas também conseguem simular mentalmente situações, isso sugere que as bases dessa habilidade podem ter surgido muito antes do que se imaginava. As próximas pesquisas devem investigar se esse tipo de competência é comum entre outros primatas ou se está restrita a indivíduos com treinamento específico. O que parece cada vez mais claro é que a distância mental entre humanos e macacos pode ser menor do que supúnhamos.
O fantástico mundo dos primatas: macacos são capazes de imaginar e simular cenários como os humanos
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