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O que a Lua nos revela?

por afonsobenites
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Tem uns dias que a gente acorda pensando e querendo saber por que voltamos a sondar o espaço? De onde vem esse desejo improvável de sair da Terra? Qual o interesse oculto dessas missões? Para que serve todo esse trabalho? Ou mesmo como esse pessoal vai conseguir conviver 10 dias dentro daquele cubículo? Uma coisa não deixa dúvida: uma viagem à Lua é, de fato, um espetáculo. E a NASA demonstra um talento raro no setor público para produzir fenômenos midiáticos de escala global. Ainda que frequentemente percebida como uma grande empresa — com marca forte e estratégias sofisticadas de comunicação —, a NASA é uma agência civil do governo dos Estados Unidos, criada por lei em 1958 e financiada majoritariamente por recursos públicos. O que chama atenção, portanto, é essa combinação pouco comum: uma instituição pública que opera com a eficácia simbólica e comunicacional de uma marca global, convertendo ciência, tecnologia e política em narrativas capazes de mobilizar imaginários coletivos em escala planetária. Ainda que existam aqueles que, apesar disso, ou justamente por isso, desconfiem até hoje do pouso na Lua, o atual fenômeno midiático do programa Artemis é um bom exemplo dessa competência comunicacional. Mais do que um empreendimento científico, Artemis é percebida como acontecimento simbólico, estético, visual e político, amplificado por imagens em alta definição e assistido via YouTube em tempo real. É uma espécie de Big Brother estranho, em que podemos acompanhar o cotidiano dos astronautas, somado à presença intensa nas redes sociais e a uma estratégia que tenta aproximar o público de sua experiência. Isso enquanto o governo dos EUA patina na narrativa sobre a guerra com o Irã. Nesse contexto, a Lua volta a funcionar como palco privilegiado de disputas sobre tecnologia, geopolítica e imaginário. Um projeto de colonialismo sideral que atravessa diferentes espectros políticos dos Estados Unidos desde a época de Kennedy. Nas entrevistas da equipe da Artemis II, realizadas diretamente do espaço profundo, chamam atenção as declarações de Victor Glover, que elevam a narrativa a uma dimensão ética e filosófica. Ao observar o planeta a mais de 250 mil quilômetros de distância, ele descreve a Terra não apenas como um ponto de origem, mas como uma “espaçonave” compartilhada, um oásis de vida vibrante cercado pelo “monte de nada” do universo. Para Glover, a distância não torna os astronautas seres superiores. Pelo contrário, ele insiste que “vocês é que são especiais”, reforçando que a verdadeira maravilha não é o foguete, mas o sistema biológico frágil que sustenta a humanidade. Sua fala culmina em um apelo à unidade, sugerindo que, vistos de longe, os conflitos desaparecem e sobra apenas a realidade de que somos todos Homo sapiens, habitando o mesmo destino e desafiados a colaborar para prosperar. O chamado Overview Effect (Efeito de Visão Geral, o termo foi formulado por Frank White) é o nome dado à mudança de percepção que muitos astronautas relatam ao ver a Terra do espaço: o planeta aparece ao mesmo tempo belo, frágil, sem fronteiras visíveis e profundamente interligado. Em termos psicológicos, o fenômeno costuma ser descrito como uma experiência de assombro e autotranscendência. Entre os elementos recorrentes nos relatos estão a sensação de unidade, a emoção avassaladora e uma consciência mais aguda da vulnerabilidade da Terra. No contexto atual, a fala de Victor Glover, o primeiro astronauta negro em uma missão lunar, ganha uma força particular. Pelo menos é essa a impressão que se fica à luz da leitura de A comunidade terrestre (2025), novo livro de Achille Mbembe. Não se trata apenas de um apelo emotivo à unidade humana, mas da intuição de que as fronteiras nacionais, embora historicamente poderosas, não estão inscritas na própria Terra. Em Mbembe, o mundo não deveria ser pensado como soma de cercas soberanas e identidades fechadas, mas como espaço de coabitação, circulação e partilha. A Terra não aparece como simples plataforma de partida para novas conquistas, e sim como condição de vulnerabilidade comum. Mbembe não trata a tecnologia como algo neutro, nem apenas como um conjunto de ferramentas. Ele a vê como uma das forças centrais do nosso tempo: ao mesmo tempo em que organiza o mundo, também o fratura, o captura e o submete a novas formas de poder. A tecnologia, escreve ele, tornou-se “nosso meio”, de onde emergem novos territórios imaginários, novas linguagens e novas formas de soberania. Ao mesmo tempo, ele insiste que os objetos técnicos não são exteriores ao humano. Funcionam como prolongamentos, duplos e materializações de desejos, intenções e gestos. E ele vai além. A tecnologia começa a absorver funções antes ligadas ao religioso, ao mágico e ao estético. Passa a fornecer mitos, fábulas, mediações e até uma espécie de transcendência secular. Daí a provocação de Mbembe: ela teria se tornado uma espécie de “religião sem Deus”. Não porque substitua simplesmente a fé, mas porque ocupa o lugar de uma instância totalizante de fascínio, sentido e organização da vida. Porém Mbembe tenta pensar a técnica não só a partir da tradição ocidental do cálculo, mas também a partir de cosmologias africanas e animistas, nas quais os objetos técnicos podem ser “utensílios de vida”, mediadores entre humano, natureza, ancestralidade e metamorfose. Nesse horizonte, a técnica poderia participar da reparação do mundo, e não apenas de sua captura. O problema não é a técnica em si, mas sua clausura dentro da lógica do cálculo, do lucro e da predação. A beleza das imagens e a dimensão da experiência humana diante da imensidão do cosmo abrem um campo de possibilidades impossíveis. Olhar para a Terra de tão longe deve mexer com a cabeça. Na canção “Errare Humanum Est”, do clássico álbum A Tábua de Esmeralda (1974), Jorge Ben desloca o antigo ditado latino para um horizonte inesperado: o impulso de “sondar o espaço” torna-se uma pergunta existencial sobre a própria condição humana. Entre ficção científica, mito de origem e psicodelia pop, a canção não celebra simplesmente a conquista do cosmos. Ela encena a vertigem de um ser que imagina o infinito. A suspeita de uma “herança cósmica” aparece ao mesmo tempo como intuição e sonho, e é assim que nosso erro ganha outro sentido. Não é apenas falha, mas projeção: erramos porque buscamos, porque inventamos narrativas para ligar o terrestre ao cosmos. Na canção, o desejo de “sondar o espaço” passa pelas “sombras sobre as estrelas”, pela hipótese dos “deuses astronautas”, pela ideia de “outras galáxias” e por um “planeta de possibilidades impossíveis”. A técnica espacial, ali, não surge como coisa fria ou neutra. Ela já vem atravessada por sonho, fabulação e delírio de origem. Isso conversa com Mbembe quando ele sugere que a tecnologia não é apenas ferramenta, mas também imaginário, produção de sentido, quase uma nova instância mítica. Ao mesmo tempo, a letra faz um movimento como na capoeira: depois de abrir esse horizonte grandioso, desce de novo à condição humana. “Errare humanum est” não funciona apenas como constatação moral sobre falhar; vira quase uma chave antropológica. Erramos porque imaginamos, porque projetamos, porque tentamos ligar a Terra ao cosmos com narrativas, máquinas e mitos. Nesse ponto, a corrida espacial pode ser lida como uma das formas contemporâneas desse erro constitutivo — não exatamente erro como fracasso, mas como desvio, busca, vertigem. No final Jorge constata, nem deuses nem astronautas. Continuamos humanos: ambíguos, fascinados, errantes. E talvez seja isso que a Lua ainda possa nos revelar. Não uma fuga, nem uma promessa de transcendência, mas uma nova maneira de olhar para a Terra — e para nós mesmos como uma única e frágil comunidade. Essa coluna é dedicada ao nosso cosmonauta tropical Jorge Ben Jor. (coescrito com uma IA.)

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