Quem convive com asma costuma ficar atento a fatores capazes de desencadear ou agravar uma crise. Poeira, mofo e poluição são alguns dos conhecidos. Agora, um estudo com camundongos aponta outro possível elemento: o consumo elevado de açúcar. Publicado na revista Nutrients e divulgado pela Fapesp, o trabalho identificou uma piora significativa da inflamação pulmonar em animais que receberam grandes quantidades de leite condensado. O efeito apareceu em apenas duas semanas, período que, segundo a pesquisa, corresponderia a aproximadamente dois anos em humanos. O resultado chama atenção porque sugere que os efeitos de uma alimentação rica em açúcar sobre processos inflamatórios podem aparecer antes de consequências mais conhecidas, como o ganho de peso. Durante o experimento, os camundongos continuaram recebendo a quantidade habitual de ração, mas também tiveram leite condensado disponível. A pesquisa observou que, nos animais com sensibilidade alérgica, o consumo elevado de açúcar intensificou a inflamação nos pulmões. Segundo os pesquisadores, trata-se do primeiro estudo feito com um modelo experimental da asma a demonstrar a rapidez com que o açúcar pode agravar um quadro inflamatório desse tipo. A asma é uma doença inflamatória crônica das vias aéreas. Durante o processo, os brônquios ficam mais espessos e estreitos, enquanto a produção de muco aumenta. O conjunto dessas alterações pode dificultar a passagem de ar e provocar sintomas como falta de ar, chiado no peito e tosse persistente. Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores está relacionada à gordura armazenada na região abdominal. Os experimentos indicaram que o excesso de açúcar provocou uma resposta inflamatória sistêmica, envolvendo órgãos como fígado, pâncreas e intestinos. O tecido adiposo visceral passou a liberar substâncias inflamatórias, entre elas a leptina e citocinas. Essas moléculas podem circular pelo organismo e intensificar a resposta alérgica nos pulmões. Os pesquisadores também observaram a migração de células de defesa em estado inflamatório da gordura abdominal para os pulmões. A partir daí, a reação alérgica já existente nos animais com asma foi intensificada. Apesar dos resultados, o estudo não indica que uma dieta rica em açúcar seja capaz de provocar asma em quem não tem a doença. Nos animais sem sensibilidade alérgica, o consumo elevado de leite condensado não levou ao desenvolvimento da condição. Nesses casos, os pulmões permaneceram normais, embora a gordura abdominal tenha apresentado sinais de inflamação. Já nos camundongos que tinham asma induzida, o açúcar foi associado a um aumento expressivo do muco nas vias aéreas e ao recrutamento de células inflamatórias. Para Caroline Marcantonio Ferreira, professora do Centro de Ciências Naturais e Humanas da Universidade Federal do ABC, que coordenou o estudo enquanto ainda trabalhava na Universidade Federal de São Paulo, o resultado chama atenção para possíveis efeitos rápidos do consumo excessivo de açúcar. A pesquisadora defende que os achados podem ter impacto na prática clínica e na formulação de políticas públicas, principalmente quando se trata de crianças e pessoas com doenças respiratórias crônicas. O estudo reforça, portanto, a necessidade de controlar o consumo de açúcar entre pessoas que já convivem com asma. Ainda assim, os próprios resultados estão baseados em um modelo experimental com camundongos, e a pesquisa não estabelece que os mesmos efeitos ocorram da mesma forma em seres humanos.
Açúcar em excesso pode piorar inflamação pulmonar rapidamente e acentuar sintomas da asma, aponta estudo
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