Câncer: quando o paciente precisa estar no centro do tratamento
Diagnóstico, segunda opinião, tratamento e saúde emocional levantam uma discussão necessária sobre uma medicina que precisa enxergar, antes de tudo, a pessoa
Receber um diagnóstico de câncer pode mudar a vida de uma pessoa em poucos minutos.
Antes mesmo de compreender exatamente qual é o tipo de tumor, seu estágio, suas características e quais são as alternativas existentes, muitos pacientes já passam a imaginar o pior cenário: “vou morrer”.
O medo da morte, a ansiedade, a preocupação com a família, o trabalho, o dinheiro e o futuro podem se somar ao impacto físico da própria doença. O Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos (NCI) reconhece que o diagnóstico pode provocar medo, ansiedade, tristeza e sofrimento emocional significativos, e recomenda que o suporte psicológico e social faça parte da atenção ao paciente.
É nesse ponto que surge uma discussão que precisa ser feita com responsabilidade:
Estamos tratando apenas o câncer ou estamos tratando também o ser humano que tem câncer?
Quando o tratamento também pesa
Cirurgia, radioterapia, quimioterapia, hormonioterapia e terapias-alvo podem ser fundamentais e, em muitos casos, salvar vidas. A Organização Mundial da Saúde ressalta que o tratamento deve ser escolhido de acordo com o tipo de câncer e as características individuais do paciente, tendo também como objetivo preservar a qualidade de vida.
Mas esses tratamentos podem provocar efeitos colaterais importantes.
Náuseas, fadiga, dor, alterações na aparência, perda de cabelo, alterações nutricionais, limitações físicas e impactos emocionais podem fazer parte da experiência de determinados pacientes.
Por isso, a pergunta não deveria ser apenas qual tratamento combaterá o tumor, mas também qual estratégia oferece o melhor equilíbrio possível entre benefício, riscos e qualidade de vida para aquela pessoa.
A própria definição de cuidado de suporte utilizada pelo NCI inclui o tratamento dos efeitos da doença e dos efeitos colaterais provocados pelo tratamento, além de apoio psicológico, social e espiritual.
O perigo de transformar diagnóstico em sentença
Existe outro problema que merece atenção: o impacto psicológico de ouvir a palavra “câncer”.
Para muitas pessoas, o diagnóstico imediatamente é interpretado como uma sentença de morte.
Mas câncer não é uma única doença. Existem dezenas de tipos e subtipos, com comportamentos, estágios, prognósticos e tratamentos diferentes.
A OMS destaca que o diagnóstico correto é essencial para a escolha do tratamento adequado e que determinados tipos de câncer apresentam altas possibilidades de cura quando identificados precocemente e tratados de acordo com as melhores práticas.
Por isso, entre receber uma notícia assustadora e começar um tratamento existe uma etapa fundamental:
compreender exatamente o que está acontecendo.
Diagnóstico precisa ser confirmado
Questionar um diagnóstico não significa desacreditar o médico.
Significa reconhecer que decisões importantes exigem informação de qualidade.
O NCI recomenda que pacientes considerem uma segunda opinião após um diagnóstico de câncer e antes do início do tratamento, quando isso for possível. Outro especialista pode confirmar o diagnóstico e a estratégia proposta ou sugerir mudanças e alternativas.
Em determinados casos, a revisão pode envolver exames de imagem, histórico clínico e, principalmente, a análise do material da biópsia e do laudo anatomopatológico.
O próprio NCI informa que uma segunda avaliação da patologia pode ser solicitada e que especialistas podem revisar lâminas ou blocos de material utilizados na primeira análise.
Isso não significa afirmar que exista uma “indústria de diagnósticos errados” ou que médicos estejam deliberadamente tratando pessoas sem necessidade. Não há base para generalizar dessa maneira.
Mas existe, sim, uma discussão internacional sobre qualidade diagnóstica, excesso de exames, sobrediagnóstico e sobretratamento. A OMS alerta que o uso excessivo ou inadequado de recursos diagnósticos pode contribuir para sobrediagnóstico e sobretratamento e reforça a importância de uma confirmação patológica adequada.
O paciente não pode virar apenas um prontuário
É justamente aqui que a discussão sobre o modelo de assistência ganha força.
Uma pessoa com câncer não é apenas uma imagem de tomografia, um número de protocolo ou um resultado de laboratório.
Existe uma história de vida.
Existe uma família.
Existem medos.
Existe uma profissão.
Existem sonhos.
E existe uma pessoa que precisará enfrentar física e emocionalmente aquilo que está sendo proposto.
A OMS defende uma abordagem centrada nas pessoas, considerando não apenas a doença, mas também as necessidades e experiências daqueles que convivem com ela.
A saúde emocional também precisa ser tratada
Um dos aspectos mais negligenciados pode ser justamente aquele que não aparece em uma tomografia: o sofrimento emocional.
Depois do diagnóstico, algumas pessoas passam a viver como se a morte fosse iminente, mesmo quando ainda existem alternativas terapêuticas e perspectivas que precisam ser explicadas individualmente.
O NCI aponta que ansiedade, medo, tristeza, isolamento e outras formas de sofrimento podem aparecer em diferentes momentos — desde a investigação e o diagnóstico até o tratamento, a remissão ou uma eventual recidiva.
Por isso, acompanhamento psicológico, apoio familiar, assistência social, orientação adequada e, quando necessário, acompanhamento psiquiátrico não deveriam ser vistos como acessórios.
São parte do cuidado.
Informação também é tratamento
O paciente precisa entender.
Precisa poder perguntar:
Qual é exatamente o meu diagnóstico?
O diagnóstico foi confirmado por biópsia ou outro método adequado?
Qual é o estágio da doença?
Qual é o objetivo do tratamento: curar, controlar ou aliviar sintomas?
Quais são os benefícios esperados?
Quais são os efeitos colaterais?
Existem alternativas?
O que acontece se eu buscar uma segunda opinião?
Existe tempo para tomar essa decisão com segurança?
Essas perguntas não são sinais de desconfiança.
São instrumentos para que o paciente participe conscientemente das decisões sobre sua própria saúde.
O lucro não pode ser maior que a vida
Falar em “indústria do câncer” exige cuidado.
Existe uma enorme cadeia econômica envolvendo hospitais, laboratórios, medicamentos, equipamentos, exames e serviços especializados. Mas isso não significa que todo tratamento seja motivado por interesses financeiros ou que profissionais estejam colocando o lucro acima do paciente.
A crítica que precisa permanecer aberta é outra:
Em qualquer sistema de saúde, o paciente precisa continuar sendo o centro da decisão.
A tecnologia deve estar a serviço da pessoa.
O exame deve responder a uma pergunta clínica.
O tratamento deve ter uma justificativa.
O medicamento deve considerar seus benefícios e riscos.
E a decisão deve levar em conta não apenas a doença, mas também a qualidade de vida.
Antes de começar, compreender
Diante de um diagnóstico de câncer, a pressa emocional pode ser tão perigosa quanto a desinformação.
É importante não abandonar um tratamento necessário por medo dos efeitos colaterais, mas também é razoável buscar esclarecimentos e, quando indicado, uma segunda avaliação antes de tomar decisões importantes.
Não se trata de escolher entre acreditar no médico ou acreditar na internet.
Trata-se de construir uma relação transparente entre paciente e equipe de saúde.
Uma nova pergunta para a medicina
Talvez a grande questão seja simples:
Estamos tratando a doença ou estamos cuidando da pessoa?
A melhor assistência oncológica precisa fazer as duas coisas.
Combater o câncer quando o tratamento é indicado.
Controlar sintomas.
Reduzir sofrimento.
Preservar dignidade.
Cuidar da saúde emocional.
Explicar as possibilidades.
Respeitar escolhas.
E reconhecer que cada paciente é diferente.
Porque, diante de um diagnóstico tão carregado de medo, o paciente não pode ser colocado em último lugar.
Ele precisa estar no centro.
Antes de qualquer tratamento, existe uma pessoa. E essa pessoa precisa ser ouvida.
Nota de responsabilidade: esta reportagem é uma reflexão jornalística e não substitui avaliação médica. Um diagnóstico ou tratamento de câncer não deve ser interrompido ou alterado sem conversar com a equipe responsável. Em caso de diagnóstico recente, é possível discutir com o médico a confirmação diagnóstica e a necessidade de segunda opinião, especialmente antes de decisões terapêuticas importantes.