Aos 34 anos, a nadadora Ana Marcela Cunha decidiu trocar, temporariamente, a busca por medalhas por um desafio mais íntimo — e igualmente extremo. Campeã olímpica em Tóquio-2020 e um dos maiores nomes da maratona aquática mundial, a atleta baiana se prepara para atravessar o Canal da Mancha, em julho, em uma prova que pode durar até 12 horas no mar. Natural de Salvador, Ana Marcela vê a travessia como a realização de um sonho que vem desde a infância, quando começou a nadar no mar aos 8 anos. Para ela, o desafio vai além do alto rendimento e da lógica de pódios. “É algo tão importante quanto um ouro olímpico, mas de outra forma. É uma realização pessoal, da Ana Marcela criança”, resume em entrevista ao Estadão. A decisão de encarar os cerca de 34 quilômetros entre França e Inglaterra também carrega um significado emocional. A nadadora pretende homenagear Renata Agondi, atleta que morreu em 1988 ao tentar completar o mesmo trajeto. A ideia é levar algum símbolo durante a travessia, como uma bandeira no barco de apoio. Para enfrentar as águas geladas — e sem o uso de roupa de neoprene, proibida nesse tipo de prova — a preparação envolve estratégia. A atleta ganhou peso propositalmente para ajudar na proteção térmica e utiliza lanolina, uma gordura natural, para conservar o calor do corpo. Além disso, programou um treino de 12 horas seguidas em águas abertas, simulando inclusive condições noturnas. “Em maio, terei um desafio de nadar 12 horas seguidas na Represa Billings, em São Paulo, das 8h da noite às 8h da manhã, para me preparar para o caso de começar ou terminar a prova no escuro. É uma prova que eu tenho colocado na minha cabeça que eu posso fazer entre 10 e 12 horas”. Apesar da exigência física, Ana Marcela admite que o foco principal está na preparação mental. Com uma rotina de cerca de 80 quilômetros semanais de treino, ela afirma que o corpo estará pronto — mas o desafio maior é lidar com fatores imprevisíveis, como correntes marítimas e o desgaste psicológico de tantas horas no mar. O Canal da Mancha, no entanto, não marca um fim de carreira. Pelo contrário. A nadadora trata a travessia como combustível para seguir competindo, de olho no ciclo olímpico rumo a Los Angeles-2028. “Após o canal, retornamos para as provas de 10 km focando no ciclo olímpico”. Sem pressa para encerrar a trajetória, ela evita falar em aposentadoria. “Não tenho um ponto final. Quero deixar que o tempo me mostre. Enquanto eu estiver feliz, não tem por que parar”, afirma.
Nadadora baiana encara Canal da Mancha como desafio pessoal: ‘quero deixar o tempo me mostrar quando parar’
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