A totalização dos votos nas eleições brasileiras é, na prática, uma operação de soma dos resultados produzidos individualmente por cada seção eleitoral. Segundo o secretário de Tecnologia da Informação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Júlio Valente, o processo é descentralizado, público e permite que os resultados sejam conferidos antes mesmo de chegarem ao tribunal. A explicação ocorre em meio à preparação para as Eleições 2026 e às discussões recorrentes sobre a segurança da urna eletrônica. Em entrevista publicada no site do TSE, Valente afirmou que a infraestrutura tecnológica da Justiça Eleitoral é estruturada para permitir fiscalização e auditoria em diferentes etapas da votação e da totalização. O primeiro resultado é produzido na própria seção eleitoral. Às 17h, quando a votação é encerrada, a urna eletrônica imprime pelo menos cinco vias do Boletim de Urna (BU), documento que registra os votos contabilizados naquela seção. Uma das cópias é afixada no local de votação, tornando o resultado público. Além da versão impressa, o boletim possui um QR Code que permite a conferência dos dados. Com um celular, qualquer pessoa pode fazer a leitura do código e consultar as informações referentes àquela seção. Depois, os dados de todas as urnas são reunidos para formar o resultado total da eleição. O TSE também disponibiliza os resultados individualizados por seção eleitoral. Dessa maneira, é possível comparar as informações utilizadas na totalização com aquelas registradas originalmente pela urna. Para Valente, esse mecanismo permite verificar se os dados que chegaram ao sistema de totalização correspondem efetivamente aos resultados produzidos nas seções. A transmissão dos dados ocorre depois do encerramento da votação. De acordo com o secretário, a urna eletrônica não fica conectada à internet ou a uma rede de dados. Após a impressão dos boletins, um dispositivo de armazenamento é retirado da urna e levado a um computador responsável pela transmissão. A partir desse equipamento, os dados são enviados ao TSE por meio de uma conexão criptografada. O sistema realiza uma série de verificações antes de aceitar os resultados. Entre elas, está a conferência de que os dados foram produzidos pela urna eletrônica correspondente àquela seção e de que o arquivo foi assinado digitalmente com a chave privada específica do equipamento. Somente depois que essas verificações são concluídas o resultado é incorporado à totalização. Assim, segundo Valente, o sistema não se limita a receber os dados e somá-los: há uma etapa de validação da origem e da integridade das informações. A biometria é outro mecanismo utilizado para reforçar a segurança da votação. O objetivo é garantir que apenas o eleitor habilitado possa liberar a urna para registrar seu voto. Há, entretanto, situações em que a identificação biométrica pode não ser possível. Nesses casos, o mesário pode liberar a votação, ficando registrado no sistema que a operação foi realizada pelo responsável pela seção. O secretário também defendeu que o atual modelo permite ampla fiscalização. Segundo ele, o processo eleitoral brasileiro possui dezenas de oportunidades de auditoria e fiscalização, que podem ser acompanhadas por partidos, candidatos e outras instituições habilitadas. Em relação aos questionamentos sobre a segurança das urnas eletrônicas, Valente afirmou que não há registro de fraude comprovada no sistema desde a adoção das urnas, em 1996. Ele também comparou o modelo eletrônico ao antigo sistema de votação em cédulas de papel, no qual, segundo o TSE, já foram identificados problemas relacionados à coleta, ao escrutínio e à guarda dos votos. “No modelo de votação por cédula, nós temos casos comprovados e historizados de fraudes no processo de coleta, como, por exemplo, o que a gente conhecia como o voto carrossel. Da mesma forma, havia fraudes no processo de escrutínio e na guarda das cédulas.” O secretário também explicou por que o TSE não considera necessário adotar o voto impresso como mecanismo adicional de conferência. Além de o Supremo Tribunal Federal ter considerado inconstitucional uma iniciativa nesse sentido, a Justiça Eleitoral já realizou uma experiência com impressão do voto em 2002. Segundo Valente, o modelo apresentou problemas técnicos e uma taxa maior de falhas, especialmente porque a impressora acrescenta componentes eletromecânicos ao equipamento. Mesmo após a divulgação dos resultados, entretanto, existe a possibilidade de uma recontagem. As urnas permanecem preservadas e lacradas, assim como os arquivos digitais, registros dos votos e boletins de urna. Caso um resultado seja formalmente contestado, é necessário apresentar elementos que indiquem a plausibilidade da irregularidade. A decisão sobre a realização de uma eventual recontagem cabe à Justiça Eleitoral. Para Valente, a possibilidade de conferir os resultados desde a seção eleitoral até a totalização é justamente um dos principais elementos de segurança do sistema. A lógica, segundo ele, é permitir que diferentes participantes do processo possam acompanhar, verificar e, diante de evidências concretas, questionar os resultados. A entrevista faz parte de uma série do TSE dedicada à segurança do processo eleitoral brasileiro. A Corte afirma que o objetivo é ampliar a compreensão sobre as diferentes etapas da votação e mostrar os mecanismos de proteção, fiscalização e auditoria utilizados nas eleições de 2026. Confira a íntegra da entrevista aqui.
Você votou. E depois? Entenda o caminho do voto até o resultado das eleições
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